<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" version="2.0"><channel><atom:link rel="hub" href="http://tumblr.superfeedr.com/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"/><description>Onde quer que a vida perpetue na sua mais pura existência, onde a essência seja mais intensa que a forma, onde as pessoas transbordem humanidade através da sua carne fraca e de suas peles efêmeras, lá estará o Corvo com seu papiro e sua pena, pronto para fotografar as almas dos seres humanos. Sinta-se à vontade para enxergar através de seus olhos.</description><title>Os Olhos do Corvo</title><generator>Tumblr (3.0; @osolhosdocorvo)</generator><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/</link><item><title>Blowing in the Wind</title><description>&lt;p&gt;&lt;img height="500" width="333" src="http://farm1.static.flickr.com/44/166233536_3e07e47f58.jpg" align="top"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha um lugar favorito para ficar sozinha. No ponto exato onde acabava a praia havia uma estrutura formada por quatro pedras de tamanho crescente. Com pequenos pulos que mais pareciam passos de dança ela subia na pedra mais alta, e ficava lá olhando para o mar, de costas para a civilização. Às vezes ia lá para chorar, às vezes para refletir. Às vezes ia porque ia. Algumas pessoas não precisam de razão para se isolar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos que passavam mais tempo na praia a conheciam. Ou melhor, conheciam seu rosto, conheciam seu cabelo de fogo, conheciam a forma como o crepúsculo incomodava seus olhos e a forma como ela os semicerrava, com ar contemplativo. Não a conheciam. Ninguém sabia seu nome, de quem era filha ou se sabia ou não falar. O fato é que nenhum de nós tinha coragem de profanar aquele altar formado por quatro pedras de tamanho crescete. Ninguém queria invadir o templo da deusa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Certo, alguns de nós tentaram. O filho do barbeiro certa vez escalou as rochas desajeitadamente, ralando os dedos e os joelhos quando escorregava no musgo ou se assustava com as ondas quebrando. Depois de muita luta, chegou na última pedra. &amp;#8220;Hm&amp;#8230; oi&amp;#8221;. Disse ele, timidamente, enquanto limpava batia nas calças para limpar a sujeira. Ergueu a cabeça depois de alguns instantes, ansioso pela resposta que não surgia. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas ela não precisou dizer nada, apenas olhar para ele. Os olhos estavam vermelhos, inchados, e as bochechas úmidas. Olhou para ele por algo em torno de quinze segundos e foi o suficiente para ele simplesmente dar as costas e voltar pelo mesmo caminho da subida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Não dá. Ela é como cristal. Tenho medo de me aproximar demais e depois ter que conviver o resto da vida com os cacos no chão.&amp;#8221;, disse ele. E não falamos mais dela por um longo tempo, embora sempre houvesse alguém a observando enquanto os outros se distraiam tentando pegar peixes na beira da praia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas numa certa madrugada eu acordei com suor frio escorrendo no rosto e as imagens de um pesadelo pulsando diante de meus olhos. Alguns segundos sentado na cama e eu já havia recuperado a calma, mas mesmo depois de uma hora não consegui voltar a dormir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Resolvi então que seria melhor sair da cama e esperar o dia amanhecer na praia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cheguei lá em alguns minutos, me sentei na areia, fechei os olhos e deixei o vento acariciar meu rosto. Cresci no litoral, e nada me faz sentir mais seguro do que o cheiro da brisa do mar. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De repente escutei o som abafado de passos na areia. Olhei para o lado, assustado, e dei de cara com a própria deusa, ali de pé ao meu lado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem dizer uma palavra, ela se sentou. E ali ficou, sentada perto de mim e observando as ondas, como de costume. E ali ficamos, ela compenetrada em seus pensamentos e eu tentando encontrar uma maneira de dizer algo a ela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Qual o seu nome?&amp;#8221;. A pergunta mais óbvia a se fazer. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela riu. Uma leve risada infantil, baixa, aguda. &amp;#8220;Quando eu nasci, me deram um nome. Eu acredito que meu nome seja outro. E há, ainda, um terceiro nome, que é o que o mar usa para falar comigo.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Obviamente, isso apenas me deixou mais confuso ainda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;O mar conversa com você?&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Sim. O mar, a areia, o vento. Eles conversam com todos nós.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Eu não me lembro da última vez que conversei com o mar.&amp;#8221;, comentei distraidamente apenas para logo achar que acabara de falar uma grande besteira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Ah, claro que não. Na certa estava ocupado demais para ouvir. A gente é sempre assim, sabe? O mar fala o tempo todo, mas você não ouve o mar se está sempre tão ocupado. Como você vai ouvir alguém falando se sua cabeça está longe, está veloz demais, está sempre correndo atrás de algo e sempre fugindo de algo?&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não havia resposta para isso. Me contentei em apenas virar minha cabeça para a água novamente e suspirar. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Não quer tentar?&amp;#8221; ela perguntou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Quero.&amp;#8221;, respondi automaticamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Ele já fala com você. Você só tem que escutar.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Voltei a encarar as ondas e tentei não pensar demais no que estava fazendo. Meus olhos seguiam a água, meus ouvidos se abriam novamente para escutar o barulho familiar que já se tornara apagado, mas não naquela noite. Naquela noite ele ficou gradativamente mais alto e mais claro. As ondas quebravam, uma a uma, e cada uma tinha uma voz, um humor, um segredo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Durma. Você precisa.&amp;#8221; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E gentilmente me deitei ali mesmo na areia e fechei os olhos. Leve. Devagar. Seguro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por algum motivo acordei na manhã seguinte na minha cama, mas eu sabia que aquilo não havia sido um sonho. Minhas roupas sujas de areia provavam isso. Me levantei, abri a janela e coloquei a cabeça pra fora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Bom dia&amp;#8221;, disse o vento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca mais vimos a deusa, mas também nunca mais tocamos no assunto e lentamente com o passar dos anos ela foi se afogando nas nossas memórias. Crescemos, alguns casaram, outros foram para outras cidades, mas eu permaneci lá e moro na mesma velha casa até hoje. E até hoje sempre que posso escalo aquelas quatro pedras no final da praia, e dou as costas para a civilização. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não há nada melhor neste mundo que a companhia do meu melhor amigo.&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/7956568393</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/7956568393</guid><pubDate>Sat, 23 Jul 2011 00:51:11 -0300</pubDate></item><item><title>Lovesong</title><description>&lt;p&gt;&lt;img height="600" width="900" src="http://3.bp.blogspot.com/_UQL2k-OqkGE/S8trq0saM5I/AAAAAAAAAB0/ldbedTVtzWU/s1600/cello34.jpg" align="top"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Eu sempre te amarei&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A velha mesma história se repetia. O jovem garoto, a jovem garota, mentes com gosto de novo, com anseio por emoção e paixões. Se conheceram em uma terça-feira à tarde quando um certo professor de música achou que a forma como a garota dedilhava o piano casava bem com a forma como o garoto traduzia emoções profundas em um violoncelo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se cumprimentaram e deram o nome um ao outro, e naquela troca de nomes se trocava algo mais. Eles trocavam uma chave, uma chave que daria acesso às emoções do outro se a harmonia fosse encontrada naquela tarde. Trocavam olhares, castanho no azul. Trocavam sorrisos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Posicionaram-se em seus instrumentos, partituras em seus devidos lugares, e começaram a tocar ao sinal do professor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sei dizer se foi o destino, a habilidade ou o fato de ele não pensar em outra coisa além do laço vermelho em contraste com o cabelo loiro ou de ela não pensar em outra coisa além da camisa branca em contraste com a pele escura, mas a melodia atingiu a perfeição. O professor apenas se sentou e observou enquanto os dois tocavam sem necessitar de auxílio de ninguém, se sustentando um no outro, confiando que cada nota em cada compasso harmonizaria perfeitamente. Confiança que um entenderia os sentimentos do outro, que chorariam e se alegrariam em uníssono por toda aquela melodia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando terminaram, trocaram olhares mais uma vez, mas desta vez sem desafio, desta vez sem incerteza. Ela queria ouvir o som daquele violoncelo até o fim dos seus dias, ele queria ouvir o som daquele piano até virar pó.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E assim todas as terças-feiras vieram e foram, uma parceria de poucas palavras, mas que criava um vínculo tão forte que parecia que nada destruiria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas ah, quão injusta pode ser a vida? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naquela terça-feira ela simplesmente não estava lá. E nem na outra, e nem na seguinte. Ninguém sabia lhe dizer onde ela estava ou por que não entrava em contato.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A resposta veio algumas terças-feiras depois, quando uma senhora adentrou na escola de música, uma senhora com aqueles mesmos cabelos loiros, parecia ter cerca de quarenta anos de idade, mas os olhos tinham o peso de séculos. A única coisa que ela trazia era uma mensagem para o garoto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Eu te amo.&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Escrita em uma caligrafia angelical em uma folha de papel dobrada cuidadosamente e estampada com pequenos botões de rosa. As últimas palavras da garota para o rapaz, a garota que sucumbira à fragil condição do corpo quebradiço com o qual nascera. Um corpo de vidro, que o mais inocente sopro do vento fizera adoecer e levara sua alma para longe deste mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O garoto sofreu como nunca sofrera antes, e seu violoncelo chorou as lágrimas que seus olhos se recusaram a chorar por puro orgulho. As melodias tristes se tornaram sua proteção e o fogo que o mantia aquecido, e até hoje são uma constante toda vez que o garoto põe as mãos no instrumento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Existe apenas uma melodia que foge à regra, e ele sempre a toca por último porque sabe que não há forças para tocar mais após sua última nota.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E mesmo tocando essa música no lugar mais quieto e reservado, ele pode ouvir o som de um piano a acompanhá-lo.&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/4120480505</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/4120480505</guid><pubDate>Sat, 26 Mar 2011 21:28:00 -0300</pubDate></item><item><title>The Wall</title><description>&lt;p&gt;&lt;img align="top" src="http://ernestosanchez.net/wp-content/uploads/2009/02/sidebar_mask-wall.jpg" width="310" height="467"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Abri meus olhos numa madrugada qualquer e aquilo estava lá. Um rosto, uma máscara de gesso na parede do meu quarto. Na escuridão só consegui distinguir uma massa branca e o contorno vazio e negro de dois grandes olhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Eu ainda não estava totalmente acordado e meu raciocínio ainda não funcionava plenamente. Meus olhos pesaram e logo adormeci. &amp;#8220;É um sonho&amp;#8221;, ecoava minha própria voz. &amp;#8220;É só um sonho.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;E como se o tempo acelererasse logo chegou a manhã. O sol invadia meu quarto e atacava meus olhos. Me sentei na cama e comecei meu ritual para acordar totalmente. Estiquei os braços, estralei os dedos, virei o pescoço para a direita e segurei a cabeça com as mãos por alguns segundos. Respirei fundo e virei a cabeça para o outro lado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;E aquilo ainda estava lá.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Não encontre explicação para aquilo. Levantei-me e fui observar aquela estranha face com mais atenção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;De uma certa distância realmente se parecia com uma máscara de gesso ou porcelana. As feições eram neutras e leves, o nariz fazia pouco volume e as bochechas eram magras. Os lábios eram calados e estáticos, e os olhos um espaço vazio. Nada se via neles a não ser escuridão. Toquei-a com as pontas dos dedos. Uma sensação de frio percorreu meu corpo instantaneamente. A textura era macia, mas lisa e seca. Me afastei e tive medo de tocá-la até algumas horas depois.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Na minha segunda observação, coloquei as pontas dos dedos na divisão entre a parede e a máscara, mas não encontrei meio de removê-la de lá. Estava perfeitamente colada na parede, sem um mínimo espaço para encaixar os dedos. Cogitei puxá-la colocando os dedos nos buracos dos olhos, mas confesso que a sensação ruim que aquele objeto me causava me impediu de fazer isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Não sei bem o que pensar. Sairei agora, quando voltar procurarei uma forma de tirar aquilo de lá.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Quando cheguei em casa já era quase meia-noite. Receei entrar no quarto, tive medo que aquilo ainda estivesse lá.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Depois de pensar muito e decidir que eu não poderia simplesmente ignorar a máscara, reuni coragem e entrei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Estva lá, mas parecia diferente. Estava mais sólida e parecia mais volumosa agora. Observando de perto, percebi que agora aquilo tinha orelhas. Não é impressão. Aquela coisa está &lt;em&gt;saindo &lt;/em&gt;da minha parede.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Tantos anos nesta casa velha, sentindo o cheiro podre dos anos entranhado nessas paredes barulhentas! Será que agora ela quer roubar minha sanidade? Nada posso fazer além de torcer para que desapareça. Não tenho para onde ir e nem um amigo ou parente para quem falar sobre isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Continua crescendo. A essa altura já vejo uma cabeça inteira saindo da parede do meu quarto. Continua imóvel, mas até quando?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Esta casa é da minha família há mais de um século. Coisas terríveis já aconteceram aqui. Será que eu vou fazer parte de mais uma lenda urbana que corre entre as crianças da rua? Não! Não posso suportar isso! Preciso sair daqui por algum tempo. Ficarei um mês fora. Partirei amanhã cedo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Hoje antes de partir percebi algo que me perturbou mais ainda. No corredor que leva à cozinha, uma parte da parede está um pouco enrugada. Posso estar sendo induzido a pensar isso por causa daquilo que está aparecendo em meu quarto, mas acho que está acontecendo novamente&amp;#8230; Não ficarei mais um segundo aqui. Partirei imediatamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Não escrevo em meu diário há mais de um mês. Hoje voltarei para a minha velha casa. Passei uns tempos longe de lá, tentando evitar aquela coisa horrível. Espero sinceramente que tenha sido tudo uma alucinação e que quando eu chegar lá aquilo não exista mais&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Entrei em casa devagar, receoso. Acendi as luzes, andei um pouco entre alguns cômodos e não vi nada. Será que era tudo realmente uma alucinação?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Me sentei na poltrona da sala por quase uma hora, pensando se deveria ou não ir conferir o meu quarto. Bebi duas ou três taças de vinho e subi as escadas. Ainda demorou bastante até que eu tivesse coragem para abrir a porta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;E quando eu a abri, não havia nada lá. Nem sinal daquilo. Deitei em minha cama. A lua brilhava fortemente lá fora. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Estou deitado há bastante tempo já, e o silêncio é total. Acho que posso dormir em paz&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;&amp;#8212;-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Algo terrível aconteceu! Achei que estava livre daquela maldição, mas eu não poderia estar mais enganado!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Acordei com um barulho de algo arranhando a porta do meu quarto. Ah, eu juro que senti meu coração parar! Não pude me mover, não sabia o que fazer naquela situação. A janela era alta demais para eu pular, a única saída daquele quarto era a porta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Após vários torturantes minutos, o barulho parou. Permaneci deitado na cama até me acalmar. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Quando voltei a respirar novamente, me dirigi até a porta. Engoli em seco, coloquei a mão na maçaneta e a abri lentamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;O que vi me horrorizou de uma forma que eu não imaginava que fosse possível. Sete ou oito figuras altas, completamente feitas daquele material da máscara, estavam paradas no corredor, obstruindo totalmente a saída. Assim que eu abri a porta, um deles começou a andar vagarosamente na minha direção, como se fosse extremamente pesado, e logo todos estavam fazendo o mesmo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Corri e me tranquei em meu armário, onde estou até agora. Posso sentir eles se aproximando, posso ouvir seus passos! Não tenho mais escapatória. Me resta apenas esperar aqui. Logo eles irão chegar até mim, e nem ouso cogitar o que farão comigo. A única sensação que me resta sobre o meu destino, é que ele não será um simples fim. Esta casa não me deixará ir embora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;Eu também farei parte destas paredes.&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/3123028444</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/3123028444</guid><pubDate>Sat, 05 Feb 2011 10:14:39 -0400</pubDate></item><item><title>The Garden</title><description>&lt;p&gt;&lt;img height="400" width="600" src="http://freshdirt.sunset.com/images/2008/12/11/gazebo_at_night_2.jpg"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;em&gt;There&amp;#8217;s a pale, purple moonlight&lt;/em&gt;&lt;br/&gt;&lt;em&gt;In the garden where you lay your head to die&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;em&gt;-The Creepshow&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ver uma noite tão bela transformada nessa futilidade toda me deprimiu. A mansão com todas as luzes acesas, os convidados fingindo que estão gostando dos garçons fingindo estar gostando de servi-los. Os sorrisos eram tão falsos que não se notaria diferença entre aquela festa de noivado e um baile de máscaras de formatura. Os ternos estavam impecáveis. Os vestidos, cintilantes. As maquiagens, pesadas. E em todos era apenas isso que se enxergava: ternos, vestidos e maquiagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha mãe cumprimentava com elegância todas aquelas pessoas, e parabenizou os noivos. Sinceramente, até hoje não sei bem quem eram os noivos. Não saberia dizer se eram da minha família ou amigos de amigos da minha mãe. Não me importava muito, na verdade. Só o que eu queria naquele momento era sair dali, ir para longe daquilo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A simples visão do interior da mansão me incomodava. Resolvi então sair para respirar um pouco de ar sóbrio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Atravessei o salão sem pressa. Havia ainda uma longa noite à minha frente. Saí pelas grandes portas duplas rumo à área verde nos fundos da mansão. Me sentei nos degraus de pedra e lá fiquei por alguns minutos, sem prestar atenção ou pensar em nada específico além do céu. As estrelas brilhavam intensamente, mais do que o que eu costumava ver naqueles dias. Me perdi entre elas, admirando o espaço infinito. Alguns segundos perdido na imensidão, e foi como se todas as vozes se calassem, todas os passos ficassem mudos, todas as risadas cessassem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo se calou para que eu pudesse ouvir aquela música. A fraca música que estava soando noite adentro. Não era como as músicas vazias que estavam sendo tocadas na festa. Era uma música calma, cantada por uma voz feminina doce e leve. Não conseguia discernir as palavras, mas a melodia era absolutamente linda. Fechei os olhos, procurando apreciar aquela canção misteriosa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não pude me conter de curiosidade. Me levantei e segui o som, e com isso penetrava mais e mais no jardim da mansão. Eu não raciocinava. Não tentava ver razão para aquela música estar vindo do jardim. Apenas precisava encontrar a fonte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Logo não havia mais luz. Aquela parte do jardim não tinha iluminação, então fiquei à mercê do luar para guiar meus passos. Eu não precisava ver, afinal de contas. Apenas seguir a canção. Não sei por quanto tempo andei na escuridão até encontrar algo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Me deparei com a entrada de um labirinto com paredes feitas de cerca viva. Perfeitamente podado, como se um jardineiro houvesse cuidado dele há poucas horas. Paredes de tijolos não seriam tão bem alinhadas e simétricas. O corredor era largo e haviam pequenos postes de iluminação por todo o caminho. Não pensei duas vezes antes de entrar nele. Tudo que eu precisava era da música para me guiar. Andei com a mente praticamente vazia, tentando apenas decifrar o que falava a voz feminina que cantava aquela canção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Logo cheguei num corredor que terminava no centro do labirinto. Do começo do corredor podia ver apenas que havia uma área grande no centro, e me surpreendi quando vi que pareciam haver pessoas lá.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No instante em que passei pelo portão de ferro completamente aberto, o que vi me surpreendeu mais do que tudo que eu poderia imaginar. Ali, no meio daquele labirinto, em algum ponto no jardim daquela mansão, estava acontecendo uma festa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pelo menos cinquenta homens, mulheres e crianças estavam reúnidas naquele espaço. Todos usavam roupas elegantes, mas muito menos pomposas do que os trajes dos convidados da festa da mansão. Mesas redondas estavam espalhadas pelo lugar, ao redor das quais algumas pessoas se sentavam, bebiam vinho em taças de vidro e conversavam alegremente. Por alguma razão, demorei algum tempo até perceber que todos eles usavam máscaras. Máscaras de veludo de várias cores, com vários temas, de vários formatos cobriam os olhos daquelas pessoas. Caminhei até o meio da festa, mas ninguém desviou o olhar na minha direção. Crianças passavam correndo ao meu lado, ignorando a minha presença. Não quis falar nada. Me sentia um intruso ali, e a última coisa que eu queria era chamar mais atenção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi então que eu identifiquei a origem da canção. Havia um coreto em um dos cantos do lugar, e lá estava uma banda de cinco músicos e, parada diante do microfone, uma mulher. Seus cabelos eram longos, negros e ondulados. Sua pele era pálida como a lua. A canção já estava terminando e ela já não cantava mais. Apenas estava de pé em frente ao microfone, com a cabeça baixa, agurdando o fim da canção. Os músicos tocaram o encerramento e então se silenciaram. Todos os presentes aplaudiram, inclusive eu. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A moça desceu do coreto e caminhou diretamente até mim. Trazia em uma das mãos uma máscara negra, do mesmo material e formato que as outras. Segurou a minha mão e me fez segurar a máscara. Sua pele era fria, mas o seu toque me passava uma sensação de serenidade. &amp;#8220;Aqui, coloque isso.&amp;#8221;, disse ela. Eu obedeci.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim que coloquei a máscara, todos imediatamente olharam para mim. Por vários segundos senti algo estranho, como se eu tivesse surgido naquela festa apenas naquele momento. Logo todos voltaram ao que estavam fazendo. A cantora continuou parada na minha frente, mas a banda começou a tocar uma valsa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Quer dançar?&amp;#8221;, ela me disse, sorrindo. Não consegui falar tamanha era a minha admiração pelo que estava acontecendo. Sentia uma energia confortável. Ela segurou minha mão e me puxou para mais perto dela e começamos a dançar. Logo vários pares também estavam dançando perto de nós. Era tudo tão irreal, tão próximo de um sonho&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Quem são vocês?&amp;#8221;, perguntei a ela. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Não importa quem nós somos. Não importa de onde viemos nem por que estamos aqui. Nossos nomes não valem nada. Nossos rostos já foram esquecidos, mas essa festa&amp;#8230; Ah, apenas isso durará para sempre.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao mesmo tempo em que aquilo não fazia sentido para mim, eu sentia que não precisava perguntar novamente. Fiz uma pergunta diferente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Como é possível viver assim, com tanto calor, tanta alegria, tanta sinceridade, dentro de uma noite tão fria?&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essas palavras simplesmente saíram pela minha boca. Não pensei no que estava dizendo, apenas disse, e esperava uma resposta. A cantora então aproximou o rosto de mim. Colocou a cabeça em meu ombro e cochichou no meu ouvido:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Não percebe, querido? Nós já não vivemos mais.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Após dizer essas palavras, aproximou os lábios dos meus e me beijou. O beijo não foi frio como suas mãos, mas quente como fogo. Fechei os olhos e me desliguei do mundo. Aos poucos, comecei a sentir a música acabando, as luzes diminuindo, e a garota desaparecendo lentamente, como névoa se dissipando. Permaneci de olhos fechados por algum tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando os abri novamente, estava de pé em frente à mansão. Quase todos os convidados já haviam ido embora. Não sei quanto tempo eu havia passado longe dali. Logo vi minha mãe descendo os degraus e vindo em minha direção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que havia, de fato, acontecido? Será que foi tudo um sonho? Será que minha imaginação havia pregado uma peça em mim para escapar daquela festa desagradável naquela mansão desagradável? Tudo que eu queria era entender. Seria possível que aquelas pessoas realmente estivessem lá? Seria possível que aquela festa tão alegre fosse obra de espíritos de pessoas que há muito já se foram? Eu fazia essas perguntas a mim mesmo quando minha mãe finalmente me chamou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Vamos, já está na hora. Por onde você andou? Procurei por você um tempão e&amp;#8230; o que é isso?&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A princípio não entendi a surpresa, mas quando toquei meu rosto eu entendi para onde ela estava olhando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu ainda usava a máscara.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;Ah, é só uma coisa que eu achei&amp;#8230; bonita, não acha?&amp;#8221;, disse, tentando disfarçar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;É, muito bonita&amp;#8230; Bom, se você achou jogada por aí pode ficar. Não deve ter dono.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Virou as costas e andou. Eu coloquei a máscara no bolso do terno e caminhei junto da minha mãe, mas meus pensamentos ficaram naquele jardim por um longo tempo. Ainda guardo a máscara como uma prova de que aquilo tudo, de alguma forma, foi real. O labirinto estava lá. A festa estava lá. A cantora, sua linda voz e seu doce beijo estavam lá. Toda aquela alegria, todo aquele ambiente aconchegante estava lá. Aqueles convidados podem não ter mais o sangue pulsando, o coração batendo, mas de alguma forma, estão vivos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E talvez muito mais vivos do que nós.&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2575995922</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2575995922</guid><pubDate>Sun, 02 Jan 2011 23:20:58 -0400</pubDate></item><item><title>Crossroads</title><description>&lt;p&gt;&lt;img align="top" src="http://www.starwon.com.au/~cfrench/Maze.jpg" width="407" height="389"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Por Matheus Corrêa&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Descansei mais um pouco. Agora é hora de levantar e tentar mais uma vez achar a saída. Andando e procurando marcas nas paredes, uma mancha, um arranhão, uma teia de aranha que eu não tenha visto ainda. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada. Paredes perfeitas, intocadas. Tateio uma delas em busca de imperfeições. Nada. O labirinto parece obra da própria natureza, uma pequena armadilha criada pelas forças que regem o universo para se divertir enquanto assistem criaturas insignificantes como eu lutando por um raio de sol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dou mais dez passos para a frente. Encruzilhada. Esquerda. Vinte passos. Bifurcação. Direita. Cem passos. Duzentos. Quinhentos. Perdi a conta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra encruzilhada. Ou seria a mesma?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Preciso fazer marcas nas paredes, mas não tenho instrumentos&amp;#8230; apenas minhas próprias mãos. Respiro fundo e começo a arranhar a parede. Nada. Uma das minhas unhas se parte ao meio. Dói muito, muito mesmo. Levanto meus olhos para a parede. Não posso desistir. Arremesso meu punho fechado contra a parede com toda a força que consigo reunir. Ouço um barulho de algo saindo do lugar. A dor me mostra que era apenas um de meus dedos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Me sento no chão, as costas contra a parede oposta. Observo enquanto o meu sangue na parede lentamente desaparece, desbotando primeiro em um tom leve de rosa, e alguns segundos depois para a completa inexistência. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fecho meus olhos por alguns segundos. Silêncio. Só ouço minha própria respiração por alguns segundos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De repente ouço algo. Começa baixo como uma batida de coração e gradualmente vai ficando mais alto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parecem passos. Salvação? Uma fagulha de esperança se acende. Levanto e caminho cauteloso em direção ao som. Meu coração bate mais forte à medida que me aproximo do som e ele fica mais alto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Primeiro por alegria. Agora por medo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São passos. Definitivamente são passos. Mas não são passos de um ser humano. O som é feio, errado. O intervalo entre os passos é inquietante, e só pelo som eu percebo que aquela coisa não pertence ao meu mundo assim como este labirinto. Paro por alguns segundos para acumular fôlego, e então começo a correr na direção oposta o mais rápido que consigo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Encruzilhada. Sigo em frente. Vinte passos. Encruzilhada. Esquerda. Cinquenta passos. Bifurcação. Esquerda. Trinta passos. Encruzilhada. Direita. Incontáveis passos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem saída. Uma enorme parede surge na minha frente e não há mais para onde ir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Me sento contra essa parede. Estou cansado, muito cansado. Não me importo mais. A coisa que venha e me destrua de uma vez. Não tenho mais esperança de sair vivo daqui. Fecho os olhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ouço os passos se aproximando de mim e mantenho os olhos fechados esperando o fim chegar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os passos pararam. A coisa está bem na minha frente. Posso ouvir sua respiração forte, trabalhosa. Por vários segundos ouço apenas aquela respiração diretamente à minha frente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Abro os olhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que eu vejo é algo que simplesmente não posso descrever. A aparência é horrível, a forma não faz sentido algum. Fico paralizado, encarando um único olho na cabeça da criatura. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Logo ela solta um suspiro. Um estranho suspiro de decepção. Vira de costas para mim e anda lentamente em direção à escuridão dos corredores do labirinto. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fico lá sentado por muito tempo. Não sei dizer quanto. Tempo não faz sentido neste lugar. Preciso de mais descanso. Durmo um pouco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acordo. Estou um pouco menos cansado. Levanto e ando, procurando mais uma vez a saída. A possibilidade de topar com aquela criatura em uma das encruzilhadas deste lugar faz minha alma gelar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora que penso naquele olho, acho que entendo o que me deixa tão assustado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parecia muito com meus próprios olhos, mas um pouco mais cansado. Alguns séculos mais cansado, eu diria.&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559318810</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559318810</guid><pubDate>Sat, 01 Jan 2011 19:57:39 -0400</pubDate></item><item><title>Space Oddity</title><description>&lt;p&gt;&lt;img height="768" width="1024" src="http://www.bergoiata.org/fe/Espace02/Deep%20Space%201%20-%201024x768.jpg" align="top"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Iniciando reprodução dos últimos registros do diário de bordo.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Dia 457&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Olá&amp;#8230; Aqui estou eu de novo falando sozinho com esse gravador. Disseram pra eu contar as minhas experiências de vez em quando pra manter minha cabeça funcionando&amp;#8230; Ideia idiota, se quer saber. Sabe o que eu fiz de bom hoje? Um castelo de cartas. Mais um maldito castelo de cartas. Estou ficando bom nisso, pelo menos. Tinha&amp;#8230; sei lá, uns vinte andares. Já assisti cada filme que me deram pra passar o tempo. Acho que amanhã vou procurar algum livro que por sorte eu ainda não tenha lido&amp;#8230; Bom, esse foi o meu dia de hoje. Fascinante, não é? Que seja. Boa noite.&amp;#8221;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Dia 463&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; Olá, sou eu de novo. Surpreso? É, imaginei que não. Dei uma procurada na biblioteca e achei um livro interessante, principalmente porque está em francês. Traduzi um pedaço dele, e parece que é sobre&amp;#8230; &amp;#8220;Entender as estrelas&amp;#8221; ou algo assim. Bom, a única coisa que eu tenho a entender aqui são as estrelas mesmo. Depois vou ler com mais calma. &amp;#8220;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;&lt;em&gt;Dia 470&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sabe&amp;#8230; Eu percebi que esqueci o som de vozes além da minha. Não lembro da voz da minha esposa. Tenho a impressão que só lembro do rosto dela por causa da foto que eu trouxe. Será que ela está muito diferente? Será que ela não me trocou por outro homem? Deve ser horrível pra ela ficar tanto tempo longe de mim&amp;#8230; Assim como eu não aguento mais ficar longe dela. Essa solidão ainda me mata. Quero voltar pra Terra, quero ver árvores, animais, pessoas&amp;#8230; Quero minha vida de volta.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;&lt;em&gt;Dia 480&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; Será que a Terra ainda está lá? Hoje acordei me perguntando isso. Será que nesse meio tempo em que eu estava nessa missão o ser humano não destruiu o planeta? Será que não houveram guerras nucleares? Pandemias? Talvez um cometa tenha se chocado com a Terra, talvez tenham encontrado um planeta novo e melhor para viver e esquecido de me avisar&amp;#8230; E se não houver ninguém lá quando eu chegar? Não sei se posso suportar a solidão eterna&amp;#8230; Melhor não pensar muito nisso.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;&lt;em&gt;Dia 493&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Terminei de traduzir o livro. Se chama &amp;#8220;O Chamado das Estrelas&amp;#8221; pelo visto. Muita coisa nele não me faz muito sentido. Será que as estrelas realmente querem me dizer algo? Talvez eu não esteja louco. Talvez elas realmente queiram me dizer alguma coisa. Mas o que será?&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;&lt;em&gt;Dia 510&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; Depois de um bom tempo observando, eu entendi. Sim, as estrelas tentavam me dizer algo o tempo todo. Elas sabem, o planeta não existe mais. E se existe, não é mais meu lar. Não posso mais voltar pra lá. Uma parte de mim quer acreditar que isso é só um efeito colateral de tanto tempo sozinho no Espaço, mas quanto mais eu vejo os pequenos pontos que me encaram como olhos brilhantes, mais clara para mim é a mensagem. Vou pensar nisso com mais calma&amp;#8230;&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;&lt;em&gt;Dia 515&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; Tomei minha decisão. Mesmo que o planeta continue o mesmo, eu não sou mais. Essa imensidão negra me mudou por dentro, me destruiu e reconstruiu do zero. Simplesmente não posso voltar. Minha missão está cumprida, e agora eu serei inútil para eles. As estrelas estão me chamando, e logo estarei junto delas pela eternidade. Digam à minha esposa que eu a amo. Obrigado por tudo, e&amp;#8230; Adeus.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Fim da mensagem.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559300465</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559300465</guid><pubDate>Sat, 01 Jan 2011 19:56:12 -0400</pubDate></item><item><title>Behind Blue Eyes</title><description>&lt;p&gt;&lt;img align="top" src="http://www.psychologytoday.com/files/u15/Blue_eye.jpg" width="419" height="296"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Mais um conto. A ideia era escrever só o começo durante a aula, mas a ideia fluiu bem e acabei enchendo frente e verso de uma folha de caderno. Espero que gostem.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Segunda-Feira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Ela estava olhando para mim. A princípio achei ser apenas impressão, mas ao encontrar diretamente aqueles fantasmagóricos olhos azuis por trás dos lisos cabelos negros, tive certeza de que eu era o alvo. A aluna nova estava me observando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Terça-Feira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;Passei por ela no corredor. Aquele olhar se encontrou com o meu com a energia fria de um bloco de gelo arremessado contra mim e me perfurou como uma lança. Ela sussurrou um fraco &amp;#8220;oi&amp;#8221;, e tive a impressão de a voz ecoava diretamente dentro da minha cabeça. Fria, mas imaginei ter ouvido um leve tom de deboche&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Quarta-Feira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Nada de estranho aconteceu de manhã, mas caminhando para casa notei algo. Digo&amp;#8230; acho. Pode ter sido impressão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Almoçando ouvi um barulho estranho do lado de fora, mas quando saí não havia nada lá. Tenho medo de estar enlouquecendo. Nunca fui paranoico, mas essa sensação de estar sendo observado tira minha paz. Preciso me acalmar&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Quinta-Feira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Ela não foi para a aula hoje. Quero me tranquilizar, mas algo está errado. Nunca sinto que estou sozinho. No espelho do banheiro, depois de lavar o rosto, pensei ter visto olhos azuis. Desapareceram assim que a minha visão voltou ao foco normal, mas a palidez no meu rosto continuou evidente por vários minutos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Quando cheguei em casa encontrei um botão de casaco no chão do meu quarto. Abri a janela e o arremessei o mais longe que consegui.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Sexta-Feira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Mais uma vez ela não apareceu na aula. Provavelmente está doente ou algo assim. Eu sabia que no fundo eu desejava que fosse isso, mas tentava afastar o pensamento. Não conseguia me concentrar mais. Temia pela minha sanidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Fui pra casa olhando sem parar para trás e para os lados. Não sabia o motivo para esse medo, mas era algo que eu não podia controlar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Estou indo dormir mais tranquilo. Eu sei que ela veio aqui e agora também sei onde ela se esconde. Amanhã essa agonia vai terminar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Sábado&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Acabou. Ela não vai mais me importunar. O buraco no meu quintal é bem fundo, e tomei um banho para lavar o sangue.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Sinto um peso sendo retirado das minhas costas. Estou em paz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Ninguém nunca vai descobrir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Domingo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Acho que realmente enlouqueci. Vejo por todos os cantos os cabelos negros. Olhos azuis por toda parte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Ela está morta. Tem que estar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Mas vou checar o esconderijo. Não custa nada conferir&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;em&gt;Trecho do diário do garoto que foi encontrado degolado em um buraco em seu quintal.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;em&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Ele estava sozinho lá dentro.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;em&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Nenhum de seus colegas soube dizer quem era a garota citada no diário.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559271395</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559271395</guid><pubDate>Sat, 01 Jan 2011 19:53:50 -0400</pubDate></item><item><title>What do you want from me?</title><description>&lt;p&gt;&lt;img height="774" width="700" src="http://mardehistorias.files.wordpress.com/2009/12/palhaco.jpg" align="top"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Sete da noite. É hora de se arrumar pro espetáculo.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;A vida não está lá essas cosas, não é mesmo? O trabalho cansa. A solidão incomoda. Você não para em lugar nenhum, afinal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Um pouco de maquiagem branca no rosto. Espalhando bem, pra fazer constraste com o restante.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você sempre achou que seria interessante não levar uma vida normal. Palhaço? Ha! Ninguém nunca te levou a sério. Nunca. Até hoje eles não entendem por que você desapareceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Um pouco de azul na barba. Os olhos precisam de maquiagem bem colorida.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por que escolher esse caminho? Você poderia muito bem se dar bem como uma pessoa normal. Um homem de sucesso. Rico, com uma família que te ama, um emprego estável.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Ao redor dos lábios, vermelho. Muito vermelho. Um lindo e estático sorriso.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o que você ganhou com tudo isso? Alguém respeita você? Você ganha mais do que a maioria das pessoas? Sua vida é um sucesso, você causa inveja nos outros? As suas namoradas teriam orgulho de falar da sua profissão para as amigas? Não, seu idiota. Você é um palhaço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Uma peruca laranja, um chapéu-coco. &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8230; Trazer alegria? O que você quer dizer com isso? Uma vida diferente, livre, espontânea? Sim, claro, você tem tudo isso&amp;#8230; E é claro, você nunca passa necessidade, não é? Todos do Circo são muito unidos, afinal. Mas e o amor? Ah&amp;#8230; Entendo. O amor um dia a gente encontra por aí, é verdade. Você não se irrita com as pessoas rirem de você? Ah, claro. Elas riem por você. Você gosta de fazê-las rir. Não machuca ser outra pessoa todo sábado e domingo das oito às nove cobrando cinco reais por pessoa, não é? É. Sim, eu entendo&amp;#8230; Você é feliz afinal de contas. Desculpe. Continue fazendo um bom trabalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Oito horas. O público está esperando. Um sorriso sincero estampado no rosto. Levante, palhaço, é sua hora de brilhar. Faça-os rir como nunca riram antes.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;E por uma hora, seja o dono do mundo.&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559217123</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559217123</guid><pubDate>Sat, 01 Jan 2011 19:49:16 -0400</pubDate></item><item><title>Somebody to Love</title><description>&lt;p&gt;&lt;img height="300" width="400" src="http://pracalivrebh.files.wordpress.com/2010/03/outono.jpg" align="middle"/&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br/&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Eu adoro caminhar pelo parque durante o Outono. O outono não é tão vivo quanto a alegria do Verão e nem tão morto quanto a melancolia do Inverno. O Outono é a etapa de nossas vidas em que nós aprendemos o suficiente com as experiências, mas ainda não desistimos de aprender por termos avistado o fim de nossas vidas começar a surgir no horizonte. A idade do auto-conhecimento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;E naquele dia era exatamente o que eu estava fazendo. Caminhando, sem rumo, só para sentir o clima tocar o meu rosto, ver aquelas cores tão bonitas. Mas o que mais me interessava mesmo eram as pessoas. Sérias, pensativas, agasalhadas, andando com tanta serenidade que o mundo parecia ser só aquele parque. Senhores idosos, casais de namorados, todo o tipo de pessoa. Pessoas são sempre divertidas de se observar. São universos, sim, pequenos universos separados uns dos outros, cada um com suas próprias leis e sua própria história.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Após algum tempo vagando, me senti cansado e resolvi me sentar num banco de madeira e ficar ali até o final da tarde. Procurei um com uma boa posição em relação ao sol e me sentei. Por alguns minutos fiquei parado, só observando. E como isso é divertido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Então ela apareceu. Veio andando como qualquer outra pessoa, tão pensativa quanto qualquer outra pessoa que estava ali. Cabelos vermelhos como nunca havia visto antes. Olhos verdes brilhantes&amp;#8230; E cheios de lágrimas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;E ela se sentou ao meu lado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Por alguns instantes lá estava o silêncio. O silêncio que reina absoluto no momento em que dois estranhos estão sentados no mesmo banco da praça. Frio como o ar do Outono. Passaram-se dez minutos que poderiam ser duas horas e eu não perceberia a diferença.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;E então uma voz feminina quebrou o silêncio. Não era uma voz de criança e nem uma voz de mulher. Era algo entre as duas. Extremamente suave. Extremamente triste.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Você parece ser como eu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Aquilo me surpreendeu. Não era um jeito como uma pessoa normal começa uma conversa. E só por esse fato, já achei que era provável que isso fosse verdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- É mesmo? Por quê?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Você sabe. O que leva alguém a estar sentado no banco da praça há tanto tempo só vendo pessoas estranhas passarem? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Eu não sabia a resposta. Faço isso desde que me lembro, e nunca havia parado pra pensar no motivo. A resposta veio como uma facada:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Você é solitário. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Fiquei calado. Seria isso verdade? Talvez fosse. Não. Era isso, com certeza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Você é observadora até demais, não acha?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Ela corou. Talvez a minha resposta tenha sido um pouco grosseira. Me senti envergonhado logo em seguida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Desculpa, não queria ser grosseiro com você. É só que&amp;#8230; Isso me pegou meio de surpresa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Sim, tudo bem. Não é muito comum uma pessoa simplesmente te acusar de ser solitário sendo que ela nem sabe o seu nome.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Ah, desculpa, o meu nome é&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Não. É melhor não dizer. Se eu souber o seu nome, nada disso vai adiantar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Como assim?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Eu&amp;#8230; Queria te pedir uma coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Aquela pessoa realmente era incomum. Não queria saber meu nome, e mesmo assim me pedia favores. Me senti um pouco irritado, mas ao mesmo tempo muito curioso. Resolvi levar aquilo adiante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- E o que seria?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Percebi que estava olhando fixamente para os olhos dela. Ela corou novamente e desviou o olhar. Ficou alguns segundos calada, e depois voltou a falar:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Nunca na minha vida eu tive certeza de que alguém me amou. Palavras são tão fáceis de falar, mas eu sempre senti que nada daquilo foi sincero. Então, eu queria te pedir algo&amp;#8230; Você poderia me amar?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Confesso que me controlei para não esboçar reação nenhuma. Tive medo que ela se assustasse e fosse embora. Apenas falei no tom de voz mais calmo possível:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Como assim?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Sim, eu sei, não faz sentido nenhum. Mas você não precisa entender&amp;#8230; Apenas&amp;#8230; Agora, aqui, e apenas agora e aqui, olhe nos meus olhos&amp;#8230; E sinta amor por mim. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;E eu obedeci. Não pensei, não tentei entender. Apenas senti. Olhando no fundo dos olhos dela, eu sentia calor. Quase podia ouvir o meu próprio coração batendo. E eu soube pelos olhos dela que ela sentia o mesmo. E mesmo não fazendo sentido nenhum, eu entendia o que estava acontecendo ali. Não com a cabeça, mas com o coração. E isso se prolongou por cinco minutos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Mas eu poderia muito bem dizer que foram cinco horas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Logo ela desviou o olhar e fechou os olhos. Ficou um bom tempo com eles fechados. Respirando devagar, suavemente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;- Muito obrigada&amp;#8230; Eu nunca vou esquecer o que você fez por mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Com essas palavras, ela se levantou e foi embora. Eu fiquei ali. Ao contrário do que eu esperava, não me senti triste. Foi um momento que não se encaixava na minha realidade. Como se não passasse de um sonho. O sonho mais curioso que já tive na minha vida. Tudo que eu fiz foi amar uma estranha por cinco minutos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;E de fato, naqueles longos cinco minutos, eu a amei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Já estava começando a escurecer. Não fui atrás da estranha. Senti que isso seria errado. Senti que a mágica já estava feita e que eu deveria cumprir com o pacto. Seria errado destruir aquilo. Não. Seria uma tragédia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;E então me levantei e fui para casa. Nunca me esqueci desse dia, mas nunca também desejei ter feito nada diferente. Tive a chance de experimentar um sentimento em sua forma mais pura, e isso foi uma experiência que eu nunca poderia repetir. E isso foi tão mágico quanto as coisas que acontecem ao nosso redor nessa época do ano. E vai ser uma experiência que eu vou sempre levar comigo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Afinal, eu adoro o Outono.&lt;/p&gt;</description><link>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559197111</link><guid>http://osolhosdocorvo.tumblr.com/post/2559197111</guid><pubDate>Sat, 01 Jan 2011 19:47:33 -0400</pubDate></item></channel></rss>
